A famosa crônica de Dana Canedy

Capa - Divulgação

DE PAI PARA FILHO, ÚLTIMAS PALAVRAS PARA TODA A VIDA

Por DANA CANEDY
1º de janeiro de 2007

Ele desenhava retratos de si mesmo com asas de anjo. Ele deixou suas plaquetas de identificação militar sobre uma mesa de cabeceira no meu apartamento de Manhattan. Ele comprou um agasalho de moletom azul pequenino para que o nosso bebê usasse em casa, vindo do hospital.

Então começou a escrever o que seria um diário de 200 páginas para o nosso filho, caso não voltasse vivo do deserto no Iraque.

Durante os meses anteriores em que o meu noivo, o primeiro sargento Charles Monroe King, beijou minha barriga inchada e disse adeus, ele estivera se preparando para o começo da vida que havíamos gerado e para o fim da sua própria.

Ao embarcar num avião em dezembro de 2005, ele tinha na verdade duas missões: liderar seus jovens soldados nos combates e preparar nosso menino para uma vida sem ele.

Querido filho, Charles escreveu na última página do diário, espero que este livro seja de algum modo útil para você. Por favor, me desculpe pela caligrafia e gramática ruins. Tentei terminar este livro antes de ser enviado para o Iraque. Ele precisa ser algo especial para você. Eu o escrevi nos EUA, no Kuwait e no Iraque.

O diário terá que falar por Charles agora. Ele foi morto em 14 de outubro de 2006, quando um aparato explosivo improvisado detonou perto do veículo blindado dele em Bagdá. Charles, 48 anos, havia sido designado para o Primeiro Batalhão do Exército, 67º Regimento Armado, Quarta Divisão de Infantaria, com base em Fort Hood, Texas. Faltava um mês para ele completar sua missão.

Para o primeiro Natal do nosso filho, Charles havia esperado levá-lo num passeio de carruagem pelo Central Park. Ao invés disso, Jordan, agora com nove meses, e eu nos aninhamos debaixo de um cobertor numa charrete. O cocheiro não compreendeu por que eu estava passeando sozinha com um bebê e chorando no dia de Natal. Eu contei para ele.

“Não precisa pagar”, disse ele no final da corrida, um gesto de gentileza numa cidade que pode fazer a solidão parecer muito maior.

Por escrito, Charles se revelou de um modo que raramente fez pessoalmente. Ele pensou muito sobre o que dizer a um filho que não teria recordação alguma dele. Mesmo que Jordan nunca escute a cadência da voz do seu pai, conhecerá a sabedoria de suas palavras.

Nunca tenha vergonha de chorar. Nenhum homem é bom demais para se ajoelhar e ser humilde perante Deus. Siga o seu coração e procure pela força de uma mulher.

Charles tentou adiantar algumas perguntas que surgiriam nos anos seguintes. Time favorito? Sou fã de carteirinha do Cleveland Browns. Prato favorito? Frango, frito ou assado, batata caramelada, couve e broa de milho. Trabalhos a fazer na infância? Remover neve e cortar grama. Primeiro beijo? Na oitava série.

Em legível letra de forma, ele escreveu sobre fé e fracasso, pesar e esperança. Deu dicas sobre como se comportar num encontro com uma garota e onde esconder dinheiro nas férias. Dias chuvosos têm suas vantagens, ele observou: De vez em quando você pode ter a sorte de ver um arco-íris.

Charles enviou o livro para mim por correio em julho, depois que um dos seus soldados fora morto e ele havia recuperado o corpo de dentro de um tanque. O diário estava incompleto, mas o horror causado pela morte do rapaz abalou Charles tão profundamente, que ele quis mandá-lo, mesmo tendo mais para dizer. Ele o terminou quando veio para casa, numa licença de duas semanas em agosto, para conhecer Jordan, então com cinco meses de idade. Ficou tão intoxicado de amor pelo seu filho, que mal dormia, preferindo ficar acordado, vigiando o bebê.

Eu posso preencher algumas lacunas para Jordan sobre o pai dele. Quando nos conhecemos na minha cidade natal, Radcliff, Kentucky, perto de Fort Knox, a princípio eu não achei que Charles fosse o meu tipo. Ele era tímido, caseiro, e absorvia as notícias mais pela TV do que pelos jornais (uma heresia, já que eu sou editora do New York Times).

Mas ele me conquistou. Um dia, anos atrás, fiz uma lista de características que eu queria num marido, e percebi que Charles possuía quase todas elas. Ele acordava cedo para começar cada dia com orações e com uma lista de tarefas que ia riscando à medida que as realizava. Era meticuloso, sempre insistindo em passar a roupa pessoalmente, por achar que minha habilidade em remover rugas dos tecidos deixava a desejar. Seu corpo de guerreiro, rijo como pedra, fazia-o parecer durão, mas ele tinha um coração mole.

Ele era louco por Christina, agora com 16 anos, sua filha de um casamento que terminou em divórcio. Ele a fez ficar ruborizada ao mostrar-lhe uma tatuagem com o nome dela no seu braço. Para com as mulheres, demonstrava um cavalheirismo à moda antiga, algo que ele esperava do nosso filho. Lembre-se de quem ensinou você a falar, a caminhar e a ser um cavalheiro, ele escreveu para Jordan no seu diário. Essas são suas primeiras professoras, meu principezinho. Proteja-as, abrace-as e sempre as trate como rainhas.

Embora, por ser negro, ele às vezes sentisse o aguilhão do preconceito, Charles não demonstrava amargura nenhuma. Não é justo julgar alguém pela cor da sua pele, pelo lugar de onde vem ou por suas crenças religiosas, ele escreveu. Avalie as pessoas por quem elas são, e aprenda com as diferenças delas.

Ele tinha seus defeitos, é claro. Charles por vezes era volúvel, ofendia-se com facilidade e ficava irritantemente quieto, especialmente durante uma discussão. E eu sentia que de vez em quando ele dava mais valor ao exército do que à sua família.

Ele havia se alistado em 1987, atraído pela disciplina e pelos desafios. Charles tinha outras opções — ele era um artista talentoso, treinado no Instituto de Arte de Chicago —, mas sentiu-se realizado como soldado, algo que eu respeitava, mas que nunca consegui entender. Ele tinha o peito cheio de medalhas e uma dedicação total aos seus homens.

Ele ensinava os mais moços, que mal haviam saído do colegial, a equilibrar suas finanças, aconselhava-os com relação a namoradas e às vezes pagava a fiança deles para tirá-los da prisão. Quando ele esteve em casa em agosto, preparei-lhe um chá de bebê. Um convidado recentemente me lembrou que ele havia passado quase a noite toda preocupado com as suas tropas deixadas lá no Iraque.

Charles conhecia os riscos da guerra. Durante os meses antes de partir e nos dias em que voltava de licença, conversamos bastante sobre o que poderia acontecer. Em seu diário, ele escreveu sobre a perda de colegas soldados. Mesmo assim, não consegui responder quando Charles se voltou para mim um dia e perguntou: “Você não acha que eu vou voltar, acha?” Nunca falamos abertamente que o temor de que ele talvez não voltasse fora a razão pela qual decidimos ter um filho antes de planejarmos um casamento, para não correr o risco de nunca ter a chance.

Mas Charles perdeu a oportunidade de ver Jordan nascer porque se recusou a tirar uma licença do Iraque até que todos os seus soldados tivessem ido para casa primeiro, decisão que inicialmente me magoou. E ele se ofereceu para a missão na qual morreu, contou um oficial à irmã dele, Gail T. King. Embora ele não fosse obrigado a se juntar ao comboio de reabastecimento em Bagdá, acreditava que seus soldados precisavam de alguém experiente com eles. “Ele dizia: ‘Meus garotos estão lá, preciso ir ver como estão os meus garotos’”, contou o primeiro-sargento Arenteanis A. Jenkins, colega de quarto de Charles no Iraque.

Em minha dor, aquela decisão continua a me assombrar. O pai de Charles culpa a si próprio por não ter implorado ao filho que evitasse riscos desnecessários, embora reconheça que não teria feito diferença alguma. “Ele era um líder nato”, falou seu pai, Charlie J. King. “E acreditava que o que estava fazendo era o certo.”

De volta em abril, após uma explosão numa estrada, muito parecida com a que viria a tirar-lhe a vida mais tarde, Charles escreveu a respeito de morte e dever:

A décima oitava noite foi longa e solene. Fizemos uma cerimônia memorial para dois soldados (de outra companhia), que tinham sido mortos por um artefato explosivo improvisado. Nenhum dos meus soldados compareceu. Usaram como desculpa o argumento de que era uma coisa deprimente. Eu lhes disse que era uma atitude egoísta não prestar seus respeitos por dois homens que sacrificaram suas vidas por seu país.

As coisas podem não ser sempre fáceis ou agradáveis, a vida é assim; mas é preciso sempre demonstrar respeito pela maneira como as pessoas viveram e pelo que elas defenderam. É a coisa mais nobre a fazer.

Quando Jordan tiver idade para perguntar como o pai dele morreu, vou contar a ele sobre a coragem de Charles e assegurá-lo do seu amor. E tentarei confortá-lo com as palavras do seu pai.

Deus me abençoou mais do que eu poderia ter imaginado, escreveu Charles no diário. Não me arrependo de nada, servir a pátria é ótimo.

Ele havia deixado um bilhete para mim na frente do diário para Jordan. Esta é a carta que todo soldado deveria escrever, disse ele. Para nós dois, a vida continuará através de Jordan. Ele será uma extensão de nós e, oxalá, de tudo aquilo que defendemos. Eu gostaria de vê-lo crescer e se tornar um homem, mas só Deus sabe o que o futuro nos reserva.

Artigo publicado no jornal The New York Times

Mais sobre o livro: http://www.geracaoeditorial.com.br

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