No Estadão: Livros digitais ainda engatinham no Brasil

Por Adriana Del Ré – 08/03/2011

O lançamento oficial do iPad – cobiçado tablet da Apple – no Brasil, no dia 3 de dezembro do ano passado, reacendeu as discussões sobre a situação do mercado editorial eletrônico no País. Os acervos digitais das editoras andariam bem abastecidos de títulos? Em que pé estaria a conversão dos livros em papel para a versão digital? É fato que esse filão não é novidade.

Antes de o iPad desembarcar por aqui, os mais de 54 milhões de brasileiros com acesso à internet já conseguiam baixar e-books em seus computadores e o leitor ligado em tecnologia já encontrava outras plataformas disponíveis, como o Samsung Galaxy Tab e Kindle (da Amazon). Mas não há como negar que a chegada ao Brasil da prancheta eletrônica da Apple foi um evento.

Apesar disso tudo, as respostas às perguntas feitas logo no começo deste texto se resumem à constatação do especialista em livro digital Ednei Procópio: a revolução do livro digital ainda não chegou ao Brasil. “O mercado editorial está se preparando para migrar para o digital”, afirma Procópio. “Nos EUA, esse mercado existe há 10 anos.

Aqui, deveríamos estar nos preparando nos últimos cinco anos, mas isso só tem acontecido de um ano para cá”. Ainda fazendo uma comparação com o mercado americano, o Brasil contabiliza atualmente cerca de 5 mil títulos digitais à venda de maneira legal.

Em contrapartida, nos EUA, são mais de 1,3 milhão de obras digitalizadas, que podem ser compradas nas lojas virtuais Barnes & Nobles e Amazon. Sem contar o Google eBooks, que reúne algo em torno de 5 milhões de títulos em sua estante eletrônica, na qual encontra-se um misto de obras à venda e de domínio público.

Alguns fatores estariam influenciando esse avanço tímido do nosso mercado de livros digitais – a ponto de algumas editoras ainda não terem lançado títulos em versão digital, nem previsão de quando vão fazê-lo.

Entre eles, o tempo que se leva para converter o catálogo de livros impressos para digital (o que pode levar, em média, um ano); a negociação com os escritores e a inclusão, nos contratos, de uma cláusula que prevê também o lançamento da versão eletrônica da obra.

Há, ainda, outro ponto: o receio, por parte de editoras e escritores, em relação ao controle dos conteúdos disponíveis na internet.

Versão mais barata

“Os autores têm medo de pirataria, de como é feito o controle das vendas”, afirma Fernanda Emediato, diretora da Geração Editorial. Outra questão que pode pesar na decisão de se aderir ou não a essa nova era literária diz respeito ao preço do livro.

No mundo digital, a obra fica, em média, 30% mais barata em comparação ao preço de capa do livro impresso. “É que não tem o custo da impressão”, justifica Fernanda. Dos cerca de 300 títulos que compõem o catálogo da Geração Editorial, 23 estão disponíveis para ser baixados, inclusive no iPad.

Desde que essas obras ganharam versão eletrônica, em abril de 2010, foram vendidos 400 “exemplares”. “Foi melhor do que eu imaginava. Queremos chegar a 70 títulos nesse formato até final do ano”, diz ela.

O diretor da Globo Livros, Mauro Palermo, chama atenção para a pouca acessibilidade do consumidor brasileiro às plataformas de leitura. “O mercado ainda está comprando seus aparelhos”, diz. A Apple não divulga vendas de iPads por país.

No entanto, chegou-se a dizer que, uma semana após o lançamento do tablet no Brasil, já existiam 30 mil aparelhos no País – grande parte vinda do exterior. No Brasil, o preço do iPad varia entre R$1.649 e R$2.599. De oficial, o instituto de pesquisa IDC (International Data Corporation) divulgou recentemente um estudo sobre o segmento de tablets, indicando que, em 2010, foram comercializados 100 mil unidades no Brasil. Este ano, esse número deve saltar para 300 mil.

Interatividade

Foi na Bienal Internacional do Livro de São Paulo do ano passado que a Globo Livros apresentou o primeiro livro interativo para iPad no Brasil: A Menina do Narizinho Arrebitado, de Monteiro Lobato. Por ora, está disponível uma versão parcial da obra, com o primeiro conto do livro.

Mas a previsão é de que, ainda neste primeiro semestre, seja lançada a versão completa. “Toda a interatividade desse livro está intimamente relacionada ao texto, para tornar a leitura mais divertida e lúdica”, diz Palermo. A ideia é digitalizar todos os 150 títulos do catálogo infanto-juvenil da editora até o final do ano, incluindo livros de Lobato, Ziraldo e Mauricio de Sousa.

Falando em estreias, o escritor Marcelo Xavier, que já publicou 11 títulos pela Editora Saraiva, teve sua primeira experiência no universo digital com o livro Se Criança Governasse o Mundo. Lançado no final do ano passado, em versão para iPad, este é o primeiro título animado e interativo da Saraiva.

“Gostei muito do resultado. É possível até pensar em mercado internacional para esse formato”, diz o autor. “Mas não acho que as pessoas vão abandonar o livro impresso. Ele sempre vai existir”.

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