Livro ilumina o pensamento selvagem de Schopenhauer

CRÍTICA BIOGRAFIA

Livro ilumina o pensamento selvagem de Schopenhauer

Rüdiger Safranski apresenta o pessimismo brilhante do filósofo alemão

LUIZ FELIPE PONDÉ
COLUNISTA DA FOLHA

O céu está vazio. E a Terra nunca foi beijada.
Não, não se trata de palavras de um poeta. Mas nem por isso são palavras menos românticas como desespero ou menos selvagens como constatação do lugar da Terra no Universo.
São palavras próximas ao que disse o filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860), que, sim, viveu no auge do romantismo, e que, sim, era um desesperado.
E talvez, mais do que tudo, foi um selvagem na forma de abraçar a filosofia e recusar tudo que ele achava mentira.
Um dos pessimistas mais brilhantes que já caminhou pela Terra. Esta Terra abandonada que nunca foi beijada por nenhum céu.
Dar a conhecer a vida e o pensamento de Schopenhauer é a intenção do livro de Rüdiger Safranski, “Arthur Schopenhauer e os Anos mais Selvagens da Filosofia”, da Geração Editorial.
Safranski já fez biografias de outros gigantes da filosofia alemã, como Nietzsche (1844-1900) e Heidegger (1889-1976).
Não se trata de um livro para uso de acadêmicos ou especialistas, mas nem por isso deixa de ter uma boa utilidade para estudiosos do pensamento do maior pessimista da filosofia alemã.
Partindo do contexto em que viveu Schopenhauer, o autor ilumina a filosofia alemã de então, a vida universitária (e o horror que o filósofo tinha pelas suas baixarias políticas e sua hipocrisia institucional, como, aliás, permanece até hoje), assim como fatos históricos “fora” do mundo da filosofia.
Safranski dialoga também com o que seria a “vida psicológica” do filósofo autor de “O Mundo como Vontade e Representação”, sua maior obra.
Schopenhauer teria sido um melancólico genial. Sorte dos melancólicos que são geniais e não apenas vegetam sob a bota de remédios e do consumo em busca de uma felicidade impossível.

METAFÍSICA
Safranski narra o período entre o final do século 18 e o início do século 19 como sendo uma fase de “destruição da metafísica” e surgimento de uma filosofia que investe em alguma forma de um grande “Eu”, de gente como Hegel (1770-1831), Fichte (1762-1814), entre outros (gente da qual Schopenhauer não gostava muito).
Os especialistas chamam esse período da filosofia alemã de Idealismo.
Safranski gosta de descrevê-lo como os anos mais selvagens da filosofia porque se produziu toda uma gama de sistemas filosóficos, segundo ele, munidos da intenção de fazer o homem se ver como criador de tudo.
O pessimista alemão teria sido aquele que, como precursor de Sigmund Freud (1856-1939), dinamita esta fé do homem em si mesmo e no “novo otimismo” que surgiu no mundo pós-Revolução Francesa.
Schopenhauer humilha esse novo homem cosmicamente quando diz que a Terra vaga sozinha pelo Universo carregando seu “fungo”, a vida; biologicamente, quando diz que o homem é uma espécie que pensa porque é mal adaptada ao mundo em que vive (e o pensamento é inútil e vítima de uma vontade ou natureza louca e desvairada que manda nele).
Finalmente, humilha psicologicamente quando revela que o “Eu” não manda em sua própria casa.
Excelente obra para melhorar a formação filosófica dos psicanalistas freudianos.


SCHOPENHAUER E OS ANOS MAIS SELVAGENS DA FILOSOFIA
AUTOR Rüdiger Safranski
EDITORA Geração Editorial
TRADUÇÃO William Lagos
QUANTO R$ 69,90 (688 págs.)
AVALIAÇÃO bom

Fonte: Folha de S.Paulo – Ilustrada – 10/09/2011

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