Coleção História Agora, em cima do fato

Os autores de “instant books” da Geração Editorial aprofundam as investigações e análises dos principais acontecimentos que afetam a vida do país – este também é o papel de uma editora de verdade.

O resultado mais explosivo da coleção é o best seller A Privataria Tucana, de Amaury Ribeiro Jr. que em apenas dois meses vendeu 115 mil exemplares e está entre os mais vendidos há sete semanas. A obra relata o mundo proibido dos bastidores das privatizações das Teles, no governo Fernando Henrique Cardoso, com as propinas e centenas de documentos inéditos que deixaram muitos eleitores decepcionados.

Mais a coleção tem mais casos de corrupção e uso indevido do dinheiro público.

Ninguém vai esquecer 2005, o ano em que, para surpresa de muitos brasileiros, descobriu-se que dinheiro sem origem conhecida começou a correr e a voar pelo país, em malas de tesoureiros partidários despachadas de carros, em malas de deputados-bispos evangélicos em aviões de suas “igrejas” e até enfiando na cueca de um assessor petista. Políticos, empresários e marqueteiros sempre souberam que dinheiro do caixa 2 das empresas, do contrabando, do jogo, das falsas igrejas e da corrupção política alimenta as campanhas eleitorais. No entanto, foi a primeira vez que se pôde ver o dinheiro, ao vivo, nas malas apreendidas pela Polícia Federal, e comprovar-se que o PT estava metido nessa lama.

A crise provocada pelos indícios de corrupção no governo PT é o tema de um novo volume da Coleção História Agora da Geração Editorial, Memorial do Escândalo – Os bastidores da crise e da corrupção no governo Lula, dos jornalistas investigativos Gerson Camarotti e Bernardo de La Peña. Trata-se do primeiro “instant book” sobre a crise política que abalou o governo Lula. Com decepção, os brasileiros descobriram que PT agia como qualquer outro partido: usava dinheiro de caixa 2 para financiar campanhas e comprar votos de deputados – acusação que também fora feita aos governos Sarney e FHC.

“Nenhum político, nenhum candidato, nenhum governante pode, com segurança, afirmar eu não foi beneficiado por este sistema sombrio, sob pena de passar por mentiroso ou ingênuo”, afirma o editor da Geração Editorial, Luiz Fernando Emediato, que assina a apresentação de Memorial do Escândalo.

Já vi esse Filme, de Luiz Maklouf Carvalho, outro livro da coleção, também trata de irregularidades nos governos do PT, nas campanhas e na vida de Lula e nos sindicatos da CUT. De 1984 a 2005, Maklouf escreveu uma centena de reportagens sobre Lula e o PT para quatro grandes jornais – Jornal do Brasil, Jornal da Tarde, O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo. O livro conta a história de dessas reportagens e traz a íntegra de várias delas.

Lula e o PT reagiram a essas reportagens de maneiras diversas. O episódio mais conhecido da reação da direção do PT foi o veto de Lula à presença de Maklouf no programa de entrevistas Roda Viva, da TV Cultura, às vésperas da eleição presidencial de 1988. As reportagens mostram que muito do que ocorre hoje com o PT e seus membros não é novidade, mas muita gente não sabia ou não se lembrava mais disso. “De maneira geral, com as exceções de praxe, a mídia tem responsabilidade por essa memória fraca, na medida em que não dá sequencia e acompanhamento sistemático a alguns episódios”, diz Maklouf.

Outro fato inesquecível de 2005 foi a prisão do ex-governador e ex-prefeito Paulo Maluf, pela Polícia Federal, em setembro, sob acusação de tentar impedir as investigações sobre a fantástica quantia de dinheiro que teria desviado dos cofres públicos e colocado em contas secretas no exterior, principalmente na Suíça. O Dinheiro Sujo da Corrupção, de Rui Martins, disseca os bastidores e segredos da operação que revelou as contas de Maluf no exterior e resultou em sua prisão.

Rui Martins, jornalista brasileiro que vive há mais de duas décadas em Genebra, acompanhou o dia a dia das investigações sobre as contas da família Maluf. Martins e o jornalista suíço Jean Noel Cuenod, que também cobriu o caso para a imprensa européia, vão cobrar a promessa do ex-prefeito de entregar o dinheiro das contas “a quem o encontrar”. Como eles afirmam que encontraram o dinheiro, exigirão que a fortuna lhes seja entregue, para que doem a alguma entidade brasileira idônea de trabalho reconhecido de combate à desigualdade social.

 Como afirma no prefácio de O Dinheiro Sujo da Corrupção o suíço Jean Ziegler, ativista  e ex-deputado suíço que se tornou o terror do bancos, foram as famílias humilhadas, que vivem na miséria, abandonadas pelos poderes públicos, que, durante anos, pagaram o preço da corrupção dos políticos.

A história de como o deputado federal Luiz Antonio de Medeiros desbaratou o contrabando e a falsificação de produtos no Brasil, com a cinematográfica prisão do contrabandista Law Kin Chong, é o tema de A CPI da Pirataria – Os Segredos do Contrabando e da Falsificação no Brasil. Desde então Medeiros, o autor, só anda escoltado por um policial federal, porque está ameaçado de morte pelos contrabandistas.

A prisão de Chong e a gravação, em vídeo, de sua tentativa de subornar o deputado surpreenderam i país. A operação foi desenvolvida em conjunto com a Polícia Federal, que há anos tentava prender um dos chefes do contrabando da pirataria de produtos no Brasil – crimes que desviam, segundo o diretor da Polícia Federal, delegado Paulo Lacerda (que assina a apresentação do livro), “bilhões de reais, na sonegação de tributos e não pagamento de encargos trabalhistas, com repercussões dramáticas no índice de desemprego”.

Segundo Medeiros, que presidiu a CPI da Pirataria, descobriu-se que o crime organizado não cuida mesmo somente do contrabando e da pirataria, mas também financia outras atividades ilegais, como a lavagem de dinheiro do tráfico de drogas e o financiamento de grupos terroristas.

O que jogadores de um time de futebol, velhinhos aposentados e o subsolo contaminado têm em comum? Exceto habitarem a mesma cidade. Volta Redonda (RJ), o fato de nutrirem, como a maioria da população e até o arcebispo Dom Waldyr Calheiros, aversão pela direção da Companhia Siderúrgica Nacional, a lendária CSN, inaugurada em 1941 e a privatizada em 1993. É ela a retratada em A Usina da Injustiça – Como um só homem Está Destruindo uma Cidade inteira, reportagem-denúncia coordenada pelo jornalista Ricardo Tiezzi. A empresa está sendo responsabilizada pela destruição dos valores e do meio ambiente de Volta Redonda. A direção da CSN acumula contra si acusações que fazem crer que responsabilidade social é apenas uma questão abstrata em métodos de gerenciar.

O livro tem prefácio do presidente da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva, o Paulinho, que apoiou a privatização das usinas siderúrgicas, e está decepcionando com as ações da empresa. “Espero que, ao tomar contato com os fatos terríveis aqui descritos, ela possa fazer um exame de consciência”, escreve Paulinho.

Depois de um amplo cadastramento das áreas pertencentes à siderúrgica na cidade, a CSN fechou o Parque da Cicuta, desalojou de seu campo o time de futebol do América, destruiu com trator uma horta de velhinhos que não quiseram sair de suas terras. Há 50 anos assolado por resíduos tóxicos, o subsolo da cidade está condenado e há relatos de pessoas acometidas de leucopenia, doença que vem matando crianças.

A CSN é o retrato inverso do quadro de privatização da Usiminas, em Ipatinga (MG), até em comparações prosaicas: enquanto o CEO da Usiminas, Rinaldo Campos Soares, joga futebol com os empregados, os diretores da CSN costumavam chegar à usina e sair de Volta Redonda de helicóptero.

Uma coisa é certa: quem estiver aprontando alguma falcatrua ou injustiça monumental pode começar a ficar preocupado – será alvo de um próximo volume da coleção História Agora. A Geração Editorial não dará sossego a quem tira a tranqüilidade do cidadão honesto. Este é também o papel de uma editora de verdade.

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