Arquivo do mês: abril 2012

O novo “estouro” de Lúcio Vaz

Por Manoel Magalhães*
 
O jornalismo investigativo,  em alta no Brasil, tem um nome respeitável. Trata-se do gaúcho de São Gabriel (RS),  Lúcio Vaz, 34 anos de profissão,  com quem tive o prazer de conviver por um bom tempo. Em 1979 eu trabalhava no Diário Popular e o Vaz no Diário da Manhã, onde era, entre outras coisas, fotógrafo. Egresso do curso de jornalismo da Universidade Católica de Pelotas, desde cedo despertou para o jornalismo investigativo.
 
Àquela época, exercitando igualmente a liderança estudantil e sindical, membro ativo do Partido Comunista,  Vaz já dava indícios do grande profissional que seria. Nas mesas de bar, sobretudo no Cruz de Malta, recanto de muitos jornalistas da época, onde o assunto, para variar, era jornalismo, o jovem e ambicioso repórter costumava falar de seus sonhos, entre os quais trabalhar em um grande jornal, fazendo matérias de repercussão.
 
Pois bem, vez. Em 1985, como era vontade de muitos jornalistas locais,  mandou-se para Brasília (eu iria fazer o mesmo alguns anos depois),  onde fez carreira, trabalhando na equipe de esportes do Correio Braziliente. Mas não era  como jornalista esportivo  que Vaz queria trabalhar. Desligou-se do Correio, ingressando no O Globo, ao mesmo tempo em que enviava material para o Sul, como correspondente do Jornal do Comércio de Porto Alegre. Logo, porém, seria contratato pela Folha dee São Paulo e sua carreira como repórter investigativo ganharia fôlego.
 
 
Seu primeiro livro no gênero é A Ética da Malandragem – no submundo do Congresso Nacional, editado pela Geração Editorial,  investiga os “bastidores” do parlamento. Em sua obra vê-se um desfile de “baixarias”, tais como compra de votos, aluguel de partido, mordomias de toda ordem, sórdidos privilégios e etc. Um grande livro. Livro, aliás, que, embora  não soubesse, fora sendo gestado aos poucos, desde Pelotas, à mesa dos bares, exercitando sua argúcia para desvendar “mistérios”.
 
Em seu novo livro, “Sanguessugas do Brasil”,  também pelo selo da editora Geração Editorial, Vaz retoma o universo investigativo.  A obra começa pelo mensalão e volta ao passado recente para expor as vísceras da Máfia dos Sanguessugas, que dá título ao livro, prosseguindo com uma radiografia dos lobistas em Brasília, desvios de verbas de infraestrutura, fraudes na distribuição de remédios, obras inacabadas, crimes ambientais praticados por indústrias papeleiras, fraudes na Ferrovia Norte-Sul e até – quem diria? – a apropriação escandalosa de bolsas de estudos destinadas aos índígenas, de acordo com o release da editora. Livro que, a exemplo do seu interior, irá provocar polêmica, tendo, merecidamente, destaque nacional.
*Jornalista e escritor, editor do Cultive Ler

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

Humor fino em situações de conflito – O Leão e a Joia

Soyinka Wole – Geração Editorial – 141 páginas – Por Núcleo de Estudos Afro-Asiáticos

O Leão e a Joia é uma fábula contemporânea que tem como cenário a pequena aldeia de Ilujinle, no país iorubá, onde a bela Sidi, a joia, é assediada por um jovem professor primário, Lakunle, treinado nos saberes ocidentais, disposto a erradicar a tradição em nome de uma europeização dos costumes, e por Baroka, o bale da aldeia, chefe tradicional e poderoso, que   pretende, através do casamento com a jovem, manter o seu prestígio e poder, bem como perenizar a sua linhagem de leão da mata.

O autor explora com fino humor as situações de conflito, dentro das referências da cultura aldeã iorubá. O jovem professor modernizador tenta convencer sua amada das vantagens da ruptura com a tradição, ao passo que o velho Baroka, aos 62 anos, joga toda uma sabedoria ancestral para seduzir Sidi. Ele mesmo faz circular a falsa notícia de sua impotência sexual para depois convencer sua pretendida que o casamento com ela era uma prova para toda a aldeia da virilidade do velho leão, condição fundamental para a manutenção do seu poder e da continuidade da cultura tradicional.

Esta peça pode ser lida como uma busca de alternativas para as sociedades africanas no pós-colonialismo. A mera substituição de brancos por negros nas mesmas estruturas de poder colonial fracassou. A simples manutenção das culturas tradicionais não responde mais aos desafios da África contemporânea.

A escolha de Sidi pode ser a saída para a incorporação de novos personagens sociais (a mulher, por exemplo) em processos de modernização que respeitem as identidades tradicionais. Talvez este seja o verdadeiro sentido do “renascimento africano”.

O Leão e a Joia marca a estreia de Wole Soyinka no mercado editorial brasileiro; coube à Geração o privilégio de publicar este Prêmio Nobel de Literatura pela primeira vez no Brasil, país tão influenciado pela cultura africana. Este precioso volume é ainda valorizado pelo prefácio de um dos maiores especialistas em cultura afro-brasileira, o dr. Ubiratan Castro de Araújo, professor na UFBA e diretor da Fundação Pedro Calmon.

Sobre Wole Soyinka

Wole Soyinka nasceu em 13 de julho de 1934 em Abeokuta, próximo a Ibadan, no oeste da Nigéria. É autor de peças teatrais, romances e poemas, cuja qualidade lhe valeu o Nobel de Literatura em 1986: o primeiro africano a receber esse prêmio. Crítico incansável das ditaduras militares da Nigéria, teve de fugir algumas vezes do seu país; desde 1994, tem residido quase que exclusivamente nos Estados Unidos. Até hoje, continua a escrever e a criticar veementemente a corrupção e a opressão em cada canto de sua idolatrada África.

http://www.uel.br/neaa/biblioteca/indicacoes-de-leitura/o-le%C3%A3o-e-joia

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

“Sanguessugas do Brasil”, o novo livro de Lúcio Vaz

O novo livro do jornalista gabrielense Lúcio Vaz (foto ao lado) vai fundo na maior ferida da política brasileira: os escândalos e bastidores da corrpução que vem acontecendo no país nas últimas décadas. Depois de falar dos esquemas no submundo do Congresso em “A Ética da Malandragem”, o jornalista vai mais longe com “Sanguessugas do Brasil”, publicado pela editora Geração Editorial, com 272 páginas, aborda de forma minuciosa estes problemas que flagelam o sistema político brasileiro.

 
Para fazer o livro, Lúcio saiu a campo para mostrar os bastidores da corrupção que vem envergonhando o país. Ele esmiuça 12 escândalos nacionais com uma linguagem rápida e leve, entremeada por passagens pitorescas que humaniza o que simplesmente poderia nos deixar revoltados. 
 
A obra começa pelo escândalo do mensalão e volta ao passado recente para expor a chamada “Máfia dos Sanguessugas”, que dá título ao livro, prosseguindo com uma radiografia dos lobistas em Brasília, desvios de verbas de infraestrutura, fraudes na distribuição de remédios, obras inacabadas, crimes ambientais, e outros crimes que deixam os espectadores de “cabelos em pé”.
 
Para fazer este livro, Lúcio viajou o país em busca de provas, durante semanas, arriscando inclusive a vida para conseguir os subsídios para o livro – há relatos inclusive de assassinatos cometidos para manter o esquema e tirar do caminho quem poderia atrapalhar as falcatruas. A obra já está à venda nas livrarias do país, devendo estar à venda em breve na cidade.
 
Sobre o autor
Lúcio Vaz, natural de São Gabriel – da localidade do Passo do Ivo -, 54 anos, é formado em jornalismo pela Universidade Católica de Pelotas, onde iniciou a trabalhar, como fotógrafo e cinegrafista. Estreou como repórter no Diário da Manhã, em 1979, e atuou na sucursal do Correio do Povo em Pelotas.
 
Transferiu-se para Brasília em 1985, no começo da nova República, e começou a cobertura do Congresso como correspondente do Jornal do Comércio, passando ainda pelo O Globo e Folha de S. Paulo.
 
Especializou-se pela cobertura do chamado “baixo clero” do Congresso – formado por parlamentares de pouca expressão política, sedentos por cargos e verbas federais, entre outras vantagens. 
 
Ainda passaria novamente pelo O Globo, e após uma passagem rápida pelo Estado de Minas, chegou ao Correio Braziliense, onde seu nome seria firmado definitivamente no jornalismo político. Publicou reportagens como o escândalo da “Máfia das Ambulâncias”, que faria parte das investigações da Operação Sanguessuga, empreendida pela Polícia Federal.
 
A série foi agraciada com o Prêmio Barbosa Lima Sobrinho, em 2006, e o 1º lugar no Prêmio Latino Americano de Reportagem Investigativa, do Instituto Prensa y Sociedad, do Peru, com apoio da Transparência Internacional. 
 
Neste meio tempo, ele lançou o livro “A Ética da Malandragem – No submundo do Congresso Nacional”, onde denuncia os esquemas obscuros da política, como compra de votos, aluguel de mandato, nepotismo, entre outros. Ele voltou a trabalhar na sucursal brasiliense da Folha de S. Paulo, em 2011. Maiores informações podem ser obtidas no hotsite do livro, onde há inclusive o primeiro capítulo a disposição, em pdf, para os leitores conferirem. Vale a pena, sem dúvidas!

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

Sexo, drogas e mentiras: a saga de J.T. Leroy – destaque na Folha SP

POR Andre Barcinski – Folha de S. Paulo

E o “verdadeiro” J.T. Leroy finalmente chegou ao Brasil.

Nesse fim de semana, Laura Albert, a autora dos livros assinados com o pseudônimo J.T. Leroy e que por anos enganou meio mundo, incluindo celebridades como Madonna e Lou Reed, esteve em Brasília para a Bienal do Livro. Albert irá também ao Rio, onde verá uma peça inspirada em seu personagem (veja matéria que publiquei na Folha aqui).

Para quem não conhece a história de J.T. Leroy, aqui vai um resumo de um dos maiores escândalos literários dos últimos tempos:

Por dez anos, J.T. Leroy, um adolescente travestido e viciado em drogas, cuja mãe o forçara a se prostituir em paradas de caminhoneiros, fez sucesso com relatos crus e pesados sobre sua vida.

Seu primeiro romance, “Sarah” (1999), recebeu ótimas críticas e caiu no gosto de celebridades. Courtney Love declarou seu amor pelo livro. Shirley Manson, da banda Garbage, fez uma música para J.T., “Cherry Lips”. Wynona Ryder e Mattew Modine participaram de leituras públicas do livro. Gus Van Sant encomendou a J.T. um roteiro, “Elefante”.

O segundo livro de J.T., “The Heart is Deceitful Above all Things” (no Brasil, “Maldito Coração”), virou um filme, dirigido por Asia Argento e com participações de Peter Fonda, Ben Foster e Wynona Ryder.

Em 2006, a bomba: J.T. Leroy não existia. Ou melhor: existia só como obra de ficção, saída da cabeça de Laura Albert, uma operadora de telessexo, cantora de punk rock e escritora de pouco sucesso, que não só inventou o personagem como passou a “interpretá-lo” em conversas telefônicas, mantidas com várias pessoas ao longo de anos.

Quando a demanda por aparições públicas de J.T. cresceu, Albert convenceu a jovem Savannah Knoop, irmã de seu namorado, a usar uma peruca e encarnar o adolescente escritor. O autor-fantasma ganhou um rosto. A própria Laura costumava acompanhar Savannah a eventos, fingindo-se de uma “assessora” de J.T..

Depois que jornais descobriram que J.T. Leroy era uma farsa, a vida de Laura Albert entrou em parafuso. Ela brigou com Savannah e se separou do companheiro de muitos anos, Geoffrey Knoop, um músico com quem tinha um filho e que também teve participação ativa na criação de J.T. Leroy.

Agora, Laura Albert está relançando no Brasil, pela Geração Editorial, seus dois primeiros livros, “Sarah” e “Maldito Coração”, pela primeira vez com seu próprio nome.

Falei com Laura Albert pelo telefone. Aqui vai o papo:

– Como você se sente finalmente lançando os livros sob seu nome, e não de J.T. Leroy?

– Estou muito ansiosa. O Brasil é o primeiro lugar onde vou falar sobre os livros. Espero que as pessoas vejam os livros pelo que eles são, e não pelo que a mídia os tornou. Recebo muitas cartas do Brasil, de pessoas que se emocionaram e foram tocadas por meus livros. Minha maior esperança é que as pessoas agora avaliem os livros pela qualidade do texto, e não pelo escândalo que eles causaram.

 – Sim, mas foi você mesma que causou o escândalo, ao inventar o personagem e fingir que ele existia de verdade.

– Mas eu sempre disse que os livros eram obras de ficção. J.T. foi só uma voz que eu inventei.

 – Claro, muita gente já escreveu com pseudônimos, isso é normal. Mas o que você fez foi diferente, não?

– J.T. não foi uma farsa. Prefiro vê-lo como um véu, um disfarce que usei para poder falar de coisas que me atormentavam e que eu não conseguia pôr no papel enquanto Laura Albert. É como dizia Oscar Wilde: “Dê ao homem uma máscara, e ele lhe dirá a verdade”.

 – Por anos, você falou ao telefone como se fosse J.T., inclusive mantendo amizades longas com muitas pessoas que admiravam os livros. Você acha que sofre de dupla personalidade?

– Acho que meu caso transcende a dupla personalidade. Foi um novo tipo de desordem, que não consigo definir. Desde pequena eu uso a mentira como um escudo, uma defesa. Era uma maneira de eu me proteger contra as coisas que me magoavam. Eu costumava ligar para serviços de apoio psiquiátrico e inventava personagens, dizia ser um rapaz do sul (dos Estados Unidos), ou uma junkie…

 – E você inventava vozes para cada um desses personagens?

– Sim, sempre tive facilidade para isso. Mas uma coisa que preciso deixar bem claro é que as histórias que coloquei nos livros de J.T. são verdadeiras, são coisas que presenciei ou que ouvi falar durante minhas internações (Laura diz ter sido internada incontáveis vezes, desde a adolescência, em clínicas psiquiátricas).

 – J.T. já veio ao Brasil (em 2005). Você não veio?

– Não. J.T. (ela quer dizer Savannah Knoop) foi. Eu fiquei arrasada, queria muito ter ido.

 – Você não sentia que estava enganando as pessoas quando falava com elas ao telefone, interpretando J.T.?

– Nunca. Eu realmente era J.T. Era como se eu falasse por ele.

 – É verdade que algumas pessoas já sabiam que você era J.T. bem antes do caso ser descoberto?

– Sim. Billy Corgan sabia, por exemplo. Ele mantinha amizade tanto comigo, enquanto assessora de J.T., quanto com o próprio J.T…

 – Você está dizendo que conversava pessoalmente com Corgan, no papel da “assessora”, e por telefone, interpretando J.T.?

– Sim. Mas eu logo contei a Billy a verdade. Ele foi a pessoa mais doce e compreensiva que já conheci. Um anjo. Ele entendeu a situação de cara e não se magoou. Pelo contrário. Ele também vem de uma situação familiar complicada e disse que me entendia perfeitamente. É um dos meus melhores amigos e me deu muita força.

 – Como está seu relacionamento com Savannah?

– Nós éramos muito próximas, mas a situação toda nos separou. Sabe, foi muito difícil para Savannah. Num dia ela estava no tapete vermelho em Cannes, ao lado de Angelina Jolie, e no outro estava trabalhando de garçonete. Não é qualquer um que suporta isso. Ela pirou. Savannah realmente se ligou ao perasonagem. Ela até mudou fisicamente, parou de menstruar, seus seios diminuíram…

 – Você foi muito ligada à cena punk californiana, não?

– Sim, muito. Tive várias bandas, conheço todo mundo. (no dia seguinte, Laura me manda esta foto, em que aparece, à direita, ao lado de Jello Biafra, Henry Rollins e Penelope Houston, da banda The Avengers):

 – Quais seus planos para o futuro? Pretende sepultar de vez J.T. Leroy?

– Estou trabalhando com Jeff Feurzeig (diretor de um ótimo filme sobre o perturbado músico Daniel Johnston) em um documentário sobre J.T.. Quero contar tudo: minha infância, as muitas internações por que passei em clínicas, minha história no punk rock. Quero passar essa história a limpo.

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

O Leão e a Joia ganha crítica positiva no Estadão

Comediante e cultura africana inspiram peça de Soyinka

O Estado de S.Paulo

O LEÃO E A JOIA

Autor: Wole Soyinka

Tradução: William Lagos

Editora: Geração

(152 págs., R$ 24,90)

UBIRATAN BRASIL

O nigeriano Wole Soyinka inspirou-se em uma particularidade da vida de Charles Chaplin para criar a trama de sua peça O Leão e a Joia, lançada agora pela Geração Editorial, aproveitando sua vinda para a 1.ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura, que termina na segunda-feira, em Brasília. “Chaplin estava com 54 anos quando se casou com Oona, que tinha apenas 17. Os problemas e as soluções provocadas por essa enorme diferença foram meu ponto de partida”, disse Soyinka, prêmio Nobel de literatura de 1986.

O Leão e a Joia é uma fábula sobre uma bela jovem, Sidi, a joia, que recebe propostas de casamento, entre elas a do chefe da aldeia, o leão. Ela tem o poder da escolha e, a partir do confronto dos pretendentes (há, ainda, um jovem professor primário, que apenas valoriza os saberes ocidentais), Soyinka aproveita para exercer o seu principal interesse literário: defender a cultura iorubá.

Na peça, ele busca retratar criticamente o período pós-colonialismo, em que muitos países africanos mantiveram os comportamentos dos antigos opressores. O fato de Sidi ter o direito de eleger seu marido e de não aceitar um papel passivo no harém do chefe da tribo reflete a evolução feminina que, embora lenta, contribui para mudanças estruturais no continente.

Em Brasília, Soyinka instigou a plateia a pensar na intolerância gerada pelas religiões; a peça, encenada pela primeira vez em 1959, perpassa pelo mesmo assunto, sempre em busca de um processo de modernização produtivo e nada predatório.

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

Encontro no planalto central – Gazeta do Povo

1ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura, sediada na capital do país, destaca produção literária da África e da América Latina

Até a semana passada, o nigeriano Wole Soyinka figurava entre os autores inéditos no Brasil. Primeiro negro a receber o prêmio Nobel de Literatura, em 1986, talvez continuasse desconhecido entre nós se não fosse, ao lado de Ziraldo, o grande homenageado da 1.ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura, evento que termina depois de amanhã, em Brasília. Com quase 50 anos de atraso, a obra de Soyinka O Leão e a Joia acaba de ser publicada aqui, pela Geração Editorial. O mesmo selo, fundado pelo coordenador literário da Bienal, Luiz Fernando Emediato, também se ocupou de relançar obras esgotadas das prateleiras nacionais, como Morango e Chocolate, do cubano Senel Paz, e Luna Caliente, do argentino Mempo Giardinelli, ambos convidados do evento.

“A literatura produzida na África e nos países hispano-americanos foram os dois eixos desta Bienal. A primeira, por ser quase totalmente desconhecida dos brasileiros. A segunda, porque já foi muito popular entre nós durante o chamado boom latino, mas depois perdeu espaço para a literatura em língua inglesa”, explica Emediato, que prezou por uma programação independente, alheia aos interesses do mercado. “Aqui não vai ter padre lançando livro”, garantiu, em tom de provocação.

Carol Matias/Divulgação

Carol Matias/Divulgação / Samanta Schweblin e Wole Soyinka foram destaques do evento Ampliar imagem

Samanta Schweblin e Wole Soyinka foram destaques do evento

Estante

Confira alguns títulos dos convidados da Bienal Brasil do Livro e da Leitura disponíveis nas livrarias:

• Amor Que Serena Termina?

Juan Gelman

Tradução Eric Nepomuceno. Record, 2001. 159 págs., R$ 31. Poesia.

• Os Escravos

Kangni Alem

Tradução de Laura Alves e Aurélio Barroso Rebello. Editora Pallas, 2011. 258 págs., R$ 38. Romance.

• O Leão e a Joia

Wole Soyinka

Tradução de William Lagos. Geração Editorial, 2012. 168 págs., R$ 24,90. Teatro.

• Pássaros na Boca

Samanta Schweblin

Tradução de Joca Reiners Terron. Editora Benvirá, 2012. 224 págs., R$ 29,90. Ficção.

• Livro de Receitas para Mulheres Tristes

Héctor Abad

Tradução de Sérgio Molina e Rubia Prates Goldoni. Companhia das Letras, 2012. 144 págs., R$ 32.

Mesmo sem a presença de Abdulai Silá – escritor da Guiné-Bissau que cancelou viagem após o golpe de estado ocorrido em seu país no último dia 12 –, os encontros do seminário Literatura Africana Contemporânea suscitaram debates interessantes. O togolês Kangni Alem, autor do romance Os Escravos, apontou a identidade, o encontro entre civilizações e os efeitos da colonização sobre os povos como os grandes temas da literatura atual no continente. Sobre a produção de Moçambique, Angola e Cabo Verde, o angolano radicado no Brasil, Ondjaki (psedônimo do escritor Ndalu de Almeida), afirmou: “somos países africanos de língua portuguesa, não de expressão portuguesa”. Paulina Chiziane, primeira mulher a publicar um romance em Moçambique, disse que apesar da distância entre o Brasil e seu país, o colonizador é o mesmo e certas correntes de pensamento que formam a identidade de ambos os povos são comuns. “Hoje, nossa literatura significa uma negociação dessas identidades”.

Hispânicos

Sob a coordenação do jornalista e tradutor Eric Nepomuceno, a Jornada Literária da América Hispânica trouxe nomes expressivos do continente, como o mexicano Mario Bellatin, o chileno Antonio Skármeta – autor de O Carteiro e o Poeta – e o argentino Juan Gelman, considerado o maior poeta vivo de língua espanhola. O autor emocionou o público com a leitura dos poemas da antologia Amor Que Serena Termina?, lançada em edição bilíngue. Ao ler sua tradução daqueles versos, Nepomuceno relevou que recorreu a um amigo músico para revisar o trabalho: ninguém menos que Chico Buarque.

No encontro Duas Gerações Argentinas, Mempo Giardinelli e a jovem escritora Samanta Schweblin, apontada como revelação em seu país, falaram sobre a necessidade de cometer “parricídios literários” para defender sua existência após os cânones. “Sou de uma geração que veio depois do século de ouro da literatura argentina. Hoje, os novos autores não precisam lidar com o peso de suceder a Bioy Casares e Jorge Luis Borges”, disse Giardinelli, cujo romance Luna Caliente virou minissérie na tevê Globo em 1999. Samanta concordou com a afirmação, ironizando: “na verdade não sobraram muitos autores por matar”, em referência ao genocídio perpetrado pela ditadura argentina. Vencedora do prêmio Casa de las Américas de 2008, a jovem de 33 anos se confessa parte do que chama de geração A: apolíticos, ateus e adogmáticos. Porém, diz notar menos isolamento entre os novos contistas, talvez por terem surgido conjuntamente, em antologias literárias. Perguntada se ainda há espaço para as utopias que inspiraram os jovens latino-americanos décadas anteriores, ela diz acreditar nas utopias pessoais.”Uma delas é poder ler autores dos países vizinhos quase em tempo real, enquanto estão escrevendo. Antes, levava-se 10 anos para um livro argentino chegar ao Chile”, exemplifica Samanta, depois de contar que acaba de ler Mãos de Cavalo, do gaúcho Daniel Galera, editado em espanhol.

Por Gazeta do Povo

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

Resistência africana – Correio Braziliense

Por Felipe Moraes / Nahima Maciel / Correio Braziliense



Soyinka defende o questionamento de valores externos na cultura africana

 

O Nobel de Literatura Wole Soyinka terá sua primeira obra lançada no Brasil durante a Bienal. Zuenir Ventura e Affonso Romano de Sant%u2019Anna também são destaques hoje
O homenageado da 1ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura tem no teatro um aliado. Como em muitos países africanos durante anos, na Nigéria o teatro popular é um meio mais acessível de representação da vida e da ficção do que o romance. Um pouco por isso, a lista de livros de Wole Soyinka inclua muitas peças. São 21 no total. Na maioria, textos que tratam da realidade africana em forma da fantasias, como a história de O leão e a joia, primeira obra do autor traduzida para o português e com lançamento marcado para hoje na Bienal. 

Na peça, uma mocinha é disputada pelo velho líder de uma tribo Iorubá e por um jovem professor ocidentalizado. Sidi, a bela e egoísta moça, deve escolher entre a tradição e o progresso representados pelos dois personagens masculinos. Dividida em três partes correspondentes a manhã, tarde e noite de um domingo, a peça traz inúmeras referências iorubás, cultura que marca boa parte da obra de Soyinka e que, muitas vezes, dificulta sua tradução e leitura. Primeiro autor negro a ser laureado com o Prêmio Nobel, em 1986, Soyinka, 78 anos, é uma voz politicamente engajada e extremamente lúcida em uma África habitada por profundas problemáticas sociais. 

Ativista, lutou pela independência da Nigéria e contra governos militares. A liberdade da criação artística sempre esteve entre suas reivindicações. Os conflitos entre tradição e progresso aparecem com frequência em suas peças, mas não há uma crítica anticolonialista declarada na postura do autor. Soyinka, claro, não tem bons olhos para o domínio exercido pelo Norte na África Negra, porém, quando escreve, tende a investir em situações que procurem caminhos nos quais as culturas locais e os hábitos coloniais se adaptem um ao outro.

Honestidade e questionamento dos valores ocidentais, ele defende, são as únicas maneiras de preservar a tradição. Para falar da África, ele diz, a literatura precisa ser verdadeira. “Recuperando a história, contestando valores externos que se tem da África , sendo genuinamente fiel ao dar ao mundo um ponto de vista africano”, disse o autor ao Correio, em entrevista publicada em março. Antes da palestra no Auditório do Museu Nacional, às 19h30, Soyinka vai autografar O leão e a joia no estande da Geração Editorial.

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized