Biografia de Getúlio Vargas, em livro de Richard Bourne

Por Andre Araujo –

A Esfinge dos Pampas

GETULIO VARGAS – A ESFINGE DOS PAMPAS,  por  Richard Bourne – Geração Editorial – Abril de 2012 – 313 paginas – Bourne é um respeitado professor da Universidade de Londres, especialista em temas latino-americanos e já fez uma biografia de Lula. Este novo  lançamento é uma visão moderna, abrangente  e  interpretativa do grande estadista brasileiro do Seculo XX., um personagem que marca definitivamente o Brasil moderno.

Não existem muitas  biografias  escritas sobre Getulio Vargas. Um historiador estrangeiro tem o olhar de fora que muitas vezes os naturais do Pais não conseguem ter e pode exercitar a historia comparativa e inserida em um campo global, o Brasil como parte da História mundial.

Não há espaço aqui para uma analise de todo o livro mas a obra trata em dois capítulos de um dos episódios mais intrigantes e menos conhecidas da biografia de Vargas. Trata-se da queda do ditador em outubro de 1945, pouco mais de um mês antes das eleições gerais marcadas para 2 de dezembro do mesmo ano. Porque Vargas foi derrubado pelas Forças Armadas, de forma até certo ponto humilhante, ele sendo um ditador de longo período, o mais poderoso na historia moderna do Brasil? Como explicar sua saída pela porta dos fundos do Poder?

….

Bourne compõe um enredo de coerente credibilidade e vai  desde as causas visíveis e imediatas para chegar às razões profundas e menos conhecidas. Os pontos centrais  dessa observação de longo alcance e formulada a partir das grandes variáveis da realidade:

1. Vargas de fato nunca controlou, como um ditador, as Forças Armadas. Contou  com a colaboração do Exercito para implantar o Estado Novo em 1937, mas  o mesmo Exercito foi  lento em defende-lo da  perigosa  investida integralista em 1938, uma atitude que não passou despercebida a Vargas e sempre foi um mistério histórico.

2.  Com a esmagadora vitoria dos aliados em Maio de 1945 o vento mudou no mundo, o Brasil apoiou e colaborou com o campo anglo-americano  mas o Estado Novo era uma clonagem do Estado fascista de Mussolini e apesar de apoiado pelos militares, a conta do Estado Novo seria paga integralmente pelo ditador, para que as Forças Armadas livrassem  sua  responsabilidade  perante a nova ordem mundial, baseada na Carta das Nações Unidas e na legitimação da Democracia no mundo ocidental como a forma de governo aceitável para os grandes países.

3. Quando marcou as eleições gerais, para Presidente e depois para Governadores para a mesma  data, 2 de dezembro, antecipando  a de governadores  que anteriormente estavam  marcadas para Maio de 1946, havia cada vez maior desconfiança nas Forças Armadas que Vargas repetiria o golpe de 1937, quando também marcou  eleições e depois  as  cancelou.   Essas desconfianças aumentaram muito de grau quando Vargas nomeou seu irmão Beijo Vargas, de má reputação e perfil nitidamente autoritário, para Chefe de Policia.  A nomeação de Beijo funcionou como gatilho para os que acreditavam em um novo golpe. Os generais exigiram que Vargas tornasse sem efeito a nomeação de Beijo, o que foi considerado por Vargas como sua deposição.

4. O homem chave para a deposição de Vargas foi o General Gois Monteiro, Ministro da Guerra que substituiu o General Dutra, em campanha para a Presidencia da Republica.

Gois tinha grande ascendência sobre a cúpula do Exercito, foi companheiro de Getulio e também peça chave da Revolução de 30 e do esmagamento da revolta paulista em 1932. Os dois candidatos à Presidencia eram militares, o Brigadeiro Eduardo Gomes e Dutra, o que diminuía consideravelmente a margem de manobra de Vargas para  um eventual cancelamento das eleições.

Mas havia um fator externo importante para o qual Bourne chama nossa atenção. Enquanto se desenrolavam os acontecimentos no Brasil, na Argentina o ex-Secretario do Trabalho, Coronel Juan Domingo Peron, deposto do cargo e preso pelos militares, era libertado por um movimento de massas, recolocado no cargo e tornava-se o político mais forte da Argentina.    Esse episodio influenciou os dois lados no Brasil, Vargas pensou em um movimento de massas para permanecer no poder e os militares desconfiavam que Vargas poderia tentar isso, repetindo o golpe branco argentino.

Outro fator importante foi a influencia das ideias democráticas captada pelos oficiais brasileiros que participaram da campanha da Italia a  partir do convívio com os generais americanos aos quais estavam subordinados. Os soldados brasileiros estavam lutando na Italia contra um Estado  parecido com o que Vargas montou e chefiava no Brasil, o que parecia uma contradição e influenciou a oficialidade que retornaria  pouco antes das eleições.

A analise de Bourne é bem mais complexa e nuançada  do que aqui relatei.  O ponto mais importante entre todos e que esta muito bem delineado é que Vargas não tinha e nunca teve o real comando das Forças Armadas, a relação era de aliança e não de subordinação, desfeita a aliança termina o poder de Vargas e ele se retira da cena sem resistência, exilando-se em São Borja  de onde não deveria sair.

Quem comunica a Vargas no Catete que sua missão terminou e que deveria sair de cena foi o General  Cordeiro de Farias, que teria um papel também marcante nos acontecimentos de 1964.

O livro tem excelentes fotos, inclusive uma que nunca tinha visto antes, de Ernesto Geisel ao lado de Vargas no Catete e outra foto impactante de Vargas com o General Gois Monteiro, imponente em trajes civis , foto de 1938.

Uma biografia imperdível, ousada e moderna, que traça um perfil pessoal de Vargas.

Um enredo para conhecer melhor essa fascinante personalidade que explica muito o Brasil de hoje.

Por Luis Nassif – http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/biografia-de-getulio-vargas-em-livro-de-richard-bourne

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