Fragmentos – Senel Paz: Notas para um perfil


A geração de Senel Paz viveu em Cuba os momentos mais críticos da Revolução. Mas vive esses momentos com olhos limpos. A soltura e a firmeza com que os temas especialmente espinhosos de vários (e muitas vezes penosos) períodos da Ilha são tratados acabam sendo uma característica dessa geração. Claro que houve antecedentes em que se apoiar: o trabalho de Alfredo Guevara à frente do ICAIC — o instituto de cinema, tradicional espaço de liberdade na cultura revolucionária de Cuba —, as ações de Silvio Rodríguez e Pablo Milanés, a teimosa persistência de vários grupos de teatro, e mesmo a ação de intelectuais que se mantiveram dentro de organismos oficiais para tentar romper, por dentro,
com as amarras castradoras de uma burocracia estéril, infecunda e esterilizante.

Este é o complexo e irrequieto panorama da cultura cubana ao longo dos muitos anos que sucederam o “quinquênio cor‑de‑cinza”, concretamente, a partir de 1977/1978. Este é o panorama que gerou obras como este livro e como o filme nascido dele.

Nesta primavera brasileira penso em Senel e em meus amigos da Ilha. Nesta altura do ano, lá é outono. Penso no que vi de Cuba ao longo dos últimos muitos anos, penso no que eles viveram. Sei que El lobo, el bosque y el hombre nuevo, ou seja, a história de Morango e chocolate, é uma forma clara de revelar a realidade. E é, através de Senel, algo mais que uma conquista dele: é uma conquista de todos aqueles que viveram, por dentro e de perto, um processo absolutamente rico e generoso — rico também de contradições e desencontros, como todo processo armado pela alma humana.

Acima de qualquer outra coisa, esta história é a visão e a voz de uma geração, de um país jovem e renovado. Uma história que é um canto à solidariedade, à tolerância, ao encontro. Durante muitos e muitos anos os cubanos aprenderam a defender a qualquer preço sua dignidade coletiva, sua integridade. Esta história mostra que aprenderam também, ao custo de muitos equívocos e muita dor, a compreender a necessidade
de se defender a dignidade individual, o direito de ser “o outro” de maneira singular, e não apenas plural. Um canto de amor aos Diegos desta vida, ao homem verdadeiramente novo: aquele capaz de generosidade, solidariedade, afeto e tolerância.

Eric Nepomuceno
Rio de Janeiro, primavera de 2012.

Sobre o livro:

Morango e Chocolate
Autor: Senel Paz
Gênero: Literatura Estrangeira
Formato: 15,6 x 23 cm.
Págs: 128
ISBN: 978-85-8130-036-8
Tradutor: Eric Nepomuceno
Preço: 24,90
Sinopse
Morango e chocolate ficou famoso na década de 90, quando transformou -se em filme de sucesso mundial, indicado para o Oscar. David, jovem revolucionário, conhece Diego, homossexual assumido, patriota e nacionalista. Surge então o dilema: o dever “patriótico” da denúncia ou a aceitação de uma amizade inesperada, que vai abrindo os olhos dos dois para outras concepções de vida e outros valores humanos, como o direito de ser plural e de manifestar -se livremente. A história, que transcorre numa Havana histórica e bela, é um canto à amizade e à tolerância, humanamente calorosa e cheia de espírito. Nesta e nas outras três histórias deste livro comovente, Senel Paz pega o leitor pelo coração, com seus personagens ora cômicos, ora líricos, daqueles que marcam para sempre as nossas vidas.


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