A mulher dos sapatos vermelhos e outras histórias

“A mulher dos sapatos vermelhos” é a reunião de 41 crônicas do jornalista Carlos Herculano Lopes.  Esses instantâneos, prenhes de singeleza e observação psicológica, acabam por formar um mosaico que constitui a nossa realidade diária em tudo que esta pode conter de colorido,
multifacetado, familiar, banal, anti-heroico, e, ao mesmo tempo, de surreal, insólito e absurdo, mas sempre com a leveza de tons de alguém que ama a vida, as mulheres, os bate-papos com amigos em bares e outros prazeres simples que, consoante Oscar Wilde, são o último refúgio do complexo.

Leia abaixo o texto O pentelho e o pentelhinho

O rapaz e dois amigos estavam tomando cerveja encostados no balcão de um bar da Rua Tenente Garbo, no Santa Tereza, coração boêmio de Belo Horizonte. Há muito tempo ele não ia àquele bairro, onde havia morado nos seus tempos de estudante, e do qual guardava

as melhores lembranças. Falavam de futebol, de política, das mulheres de Minas, que estão cada vez mais belas, quando de repente chega um homem moreno, ainda novo, e um menino, que era seu filho, como depois ficaram sabendo. Esse devia ter uns cinco anos no máximo e usava um boné com escudo do Cruzeiro.

Àquela hora o bar ainda não estava cheio e o homem, sem cumprimentar ninguém, já foi perguntando se ali se vendia cigarro de palha. Como a resposta foi sim, ele foi querendo saber qual era a melhor marca, porque não queria mata-rato. “Não sei, porque não fumo”, o dono respondeu, sem espichar maiores conversas, enquanto o garçom lhe servia uma cerveja, também sem dar muito papo. Provavelmente já o conheciam de outros carnavais. “Me arranja qualquer um, picado, e uma caixa de fósforos”, disse, como se ordenasse.

O rapaz e seus amigos continuavam encostados no balcão, quando o novo cliente, depois de dar o primeiro gole, foi comentando, dirigindo-se a eles: “Mas essa cerveja está quente, que porcaria…”. Como nenhum rendeu assunto, ele tratou de acender o cigarro, no qual também

foi colocando defeito: era forte demais, o fogo não pegava direito, o fumo estava mal picado. “Uma b.”. Enquanto isso, seu filho, o que usava boné com escudo do Cruzeiro, tratava de atazanar o garçom, tirando pedaços de um pernil que esse estava fatiando, para servir em

uma mesa. “Faz isso não, menino”, falou, olhando para o pai, que não tomou nenhuma providência. “Faço, sim, faço o que quero”, respondeu o guri, mostrando a língua.

“Que dupla!”, um dos amigos disse baixinho, quando o homem, depois de pegar outro “paioso”, porque aquele que lhe venderam estava “intragável”, pediu um pedaço de linguiça e uma “da roça, para esquentar o sangue”. Também naquela branquinha ele não viu nenhuma qualidade. “Já não se fazem cachaças como antigamente”, disse, voltando-se outra vez para os ocupantes do balcão. Como estavam falando sobre o Atlético e da nova fase com Vanderley Luxemburgo, ele foi tratando de dar seu palpite. “Tem jeito para o Galo não, podem trazer qualquer um que o Cruzeirão vai continuar por cima.” Como ninguém esboçou reação, ele se voltou para o dono do bar e perguntou, com um risinho: “Você não concorda, meu chapa?”. Esse fingiu que não ouviu, no momento em que o filho, depois de já ter mascado três

chicletes e cuspido as gominhas no chão, voltou a tirar pedaços em outra porção que o garçom preparava. Novamente, esse olhou para o pai, que apenas sorriu, e disse: “Esse meu bichinho é fogo”.

E a noite foi indo. Os amigos, depois de pedir outra cerveja, começaram a beliscar pedaços de uma carne de sol com mandioca, que era um dos carros-chefes da casa. Mas, também daquela iguaria o homem, sem ser solicitado, falou mal e disse que outra, feita pelo vizinho, “era

infinitas vezes melhor”. O bar, àquelas horas, estava bem cheio e quando o tal foi ao banheiro, onde eu seu filho já havia espalhado no chão os rolos de papel higiênico e deixado as torneiras abertas, o garçom aproveitou para dizer. “Esse é um mala sem alças. Quase todos os dias vem aqui com esse menino, só para encher o saco de todo mundo.” Alguns minutos depois, após comentar com o dono que o movimento naquela noite “estava bem fraquinho”, o pentelho e pentelhinho, como já eram conhecidos no pedaço, foram embora.

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